quinta-feira, 25 de março de 2010

Temporal

Começou com a escuridão. Leve... o céu estava na verdade apenas cinza. Mas era possível perceber que tudo já não era iluminado como antes. Os olhos já não brilhavam com a luz do sol, e eles pareciam sombrios e amedrontados. O mundo parecia sombrio e amedrontado visto de dentro. Visto de fora.

Algumas poucas gotas poderiam anunciar a chuva que estava por vir, mas continuou não dando atenção a esses sinais. Continuou caminhando, continuou indo em frente, como se o temporal que se anunciava não fosse capaz de atrapalhar seus planos. Um temporal que já se anunciou muito tempo antes de efetivamente começar.

Uma garoa leve, daquelas que apenas arrepiam suavemente os pelos do braço. Ali, parou e olhou em volta. Ninguém acompanhava seus passos, todos estavam já muito distantes procurando um abrigo ou caminhando num sentido contrário. Ninguém acompanhou sua estrada e por isso ninguém viu tudo o que estava vendo. Ninguém viu quando a chuva começou de verdade.

As gotas caíam pesadas sobre o seu corpo, como que castigando o que quer que tenha feito de errado naquele pouco tempo, antes da chuva. Chuva, ventania, frio. Uma água gelada, como que cumprindo o dever de esfriar as emoções, congelar corações e fazer as coisas voltarem ao seu lugar, através daquela enxurrada que tudo lava.

Não percebeu a solidão que acompanhava seus passos desde o início da escuridão. Não percebeu a solidão que habitava tudo ao redor com o primeiro sinal de ventania. Não parou pra pensar porque as pessoas iam todas para um lado, e continuava a caminhar pra onde tudo era vazio. E então, quando a chuva parou de cair, percebeu todos os motivos, todas as razões, todas as faltas, todas as falsas presenças, tudo o que nunca tinha sido, e nunca seria.

E nunca mais choveu.

3 comentários:

Andarilho disse...

Depois da tempestade, sempre vem a bonança.

Albuq disse...

Depois da tempestade, enfim, um tempo bom...

LIndo texto!
bjs

Beatrix Kiddo! disse...

Acho que eu tô muito burra pra vir aqui agora.