Um garoto sonha em ser dançarino quando crescer. Parece até roteiro de filme, a família não apoia, os vizinhos acham estranho, o menino vive a dançar em qualquer lugar que se apresente uma plateia. Roteiro de filme, com certeza. Se, e somente se, o menino não fosse perneta. Ainda criança, teve uma perna amputada por um acidente na rua. A família alegava negligência médica, mas também não correu atrás dos seus direitos.
E engraçado é que o sonho do menino de ser dançarino começou muito depois dele sofrer o acidente. Quando ainda tinha as pernas boas, ele não pensava muito no que queria ser, mas tinha que ser alguma coisa com o mar. Mergulhador, marinheiro, pescador, salva-vidas. Ele gostava muito do mar, e queria trabalhar olhando pra imensidão azul, todos os dias. E então veio o acidente, e ele sabia que ainda poderia viver no mar, mesmo sem uma perna.

Aí ele viu uma menina dançando. Na rua, um dia, era noite, ela voltava de algum curso ou concurso de dança, e estava acompanhada de seus pais. Dava para ver a animação no rosto da menina, contando cada um dos passos que efetuara, e como todos admiraram, e ela repetia os passos pela rua. Dançava leve, como que flutuava no ar. Seus cabelos subiam e desciam, pareciam acompanhar os braços e pernas e corpo que se lançava e voltava ao chão com graça. E ela girava, e girava, e girava, e girava, e parecia que o planeta obedecia aos seus giros graciosos, e acompanhava seu dançar.
Nessa hora o menino decidiu: eu vou ser dançarino.
Parece óbvio que, pela falta da perna, a família deveria cortar esse sonho desde o princípio. Ele dividiu esse sonho primeiro com a mãe. O apoio foi total e irrestrito. A mãe dividiu com ele sua imaginação, que já via o filho em um palco iluminado de grandes teatros da cidade, quiçá fazendo turnês pelo mundo. Primeira providência seria uma escola de dança.
O pai chiou um pouco, o fez lembrar da perna inexistente, o menino nem quis saber. Disse que seria um dançarino, e que o pai teria que ajudá-lo. Os irmãos naquele ar blasé de "whatever" não fizeram nem zombaria, nem piadinhas com as quais ele estava acostumado.
O menino que queria ser dançarino aguardava todas as noites, ansiosamente, pela menina dançarina. Ela reapareceu na rua somente um mês depois, da mesma forma que a vez anterior: dançarina, a pular, a sorrir, a deixar o ar em volta mais leve. Eles já haviam passado do seu portão, quando ele gritou "hey, menina!". Ela ainda voltava de um pulo no ar, e ele gritou de novo "menina!".
Ela parou e olhou pra trás, e viu o menino apoiado no portão de sua casa, muleta encostada em um canto do quintal. Olhou para os pais, que consentiram com um olhar que ela voltasse para mais perto do garoto. Ele sorriu quando ela chegou perto, e lhe disse "eu serei dançarino".
Ela nada disse.
E ele repetiu: "quando eu crescer, eu vou ser dançarino".
E ela lançou-lhe um sorriso, um lindo sorriso de olhar. Deu uma pirueta, deixando os cabelos bailando no giro, e foi, pulando, animada, voltando para perto dos pais. Ainda ouviu o grito de felicidade do garoto "eu vou ser dançarino", mas não ouviu a sua primeira tentativa frustrada de girar o corpo em volta da única perna.
O garoto caiu. E não chorou.
[continua...]