quarta-feira, 9 de setembro de 2009

O dançarino de uma perna só (1)

Um garoto sonha em ser dançarino quando crescer. Parece até roteiro de filme, a família não apoia, os vizinhos acham estranho, o menino vive a dançar em qualquer lugar que se apresente uma plateia. Roteiro de filme, com certeza. Se, e somente se, o menino não fosse perneta. Ainda criança, teve uma perna amputada por um acidente na rua. A família alegava negligência médica, mas também não correu atrás dos seus direitos.

E engraçado é que o sonho do menino de ser dançarino começou muito depois dele sofrer o acidente. Quando ainda tinha as pernas boas, ele não pensava muito no que queria ser, mas tinha que ser alguma coisa com o mar. Mergulhador, marinheiro, pescador, salva-vidas. Ele gostava muito do mar, e queria trabalhar olhando pra imensidão azul, todos os dias. E então veio o acidente, e ele sabia que ainda poderia viver no mar, mesmo sem uma perna.

Aí ele viu uma menina dançando. Na rua, um dia, era noite, ela voltava de algum curso ou concurso de dança, e estava acompanhada de seus pais. Dava para ver a animação no rosto da menina, contando cada um dos passos que efetuara, e como todos admiraram, e ela repetia os passos pela rua. Dançava leve, como que flutuava no ar. Seus cabelos subiam e desciam, pareciam acompanhar os braços e pernas e corpo que se lançava e voltava ao chão com graça. E ela girava, e girava, e girava, e girava, e parecia que o planeta obedecia aos seus giros graciosos, e acompanhava seu dançar.

Nessa hora o menino decidiu: eu vou ser dançarino.

Parece óbvio que, pela falta da perna, a família deveria cortar esse sonho desde o princípio. Ele dividiu esse sonho primeiro com a mãe. O apoio foi total e irrestrito. A mãe dividiu com ele sua imaginação, que já via o filho em um palco iluminado de grandes teatros da cidade, quiçá fazendo turnês pelo mundo. Primeira providência seria uma escola de dança.

O pai chiou um pouco, o fez lembrar da perna inexistente, o menino nem quis saber. Disse que seria um dançarino, e que o pai teria que ajudá-lo. Os irmãos naquele ar blasé de "whatever" não fizeram nem zombaria, nem piadinhas com as quais ele estava acostumado.

O menino que queria ser dançarino aguardava todas as noites, ansiosamente, pela menina dançarina. Ela reapareceu na rua somente um mês depois, da mesma forma que a vez anterior: dançarina, a pular, a sorrir, a deixar o ar em volta mais leve. Eles já haviam passado do seu portão, quando ele gritou "hey, menina!". Ela ainda voltava de um pulo no ar, e ele gritou de novo "menina!".

Ela parou e olhou pra trás, e viu o menino apoiado no portão de sua casa, muleta encostada em um canto do quintal. Olhou para os pais, que consentiram com um olhar que ela voltasse para mais perto do garoto. Ele sorriu quando ela chegou perto, e lhe disse "eu serei dançarino".

Ela nada disse.

E ele repetiu: "quando eu crescer, eu vou ser dançarino".

E ela lançou-lhe um sorriso, um lindo sorriso de olhar. Deu uma pirueta, deixando os cabelos bailando no giro, e foi, pulando, animada, voltando para perto dos pais. Ainda ouviu o grito de felicidade do garoto "eu vou ser dançarino", mas não ouviu a sua primeira tentativa frustrada de girar o corpo em volta da única perna.

O garoto caiu. E não chorou.

[continua...]

12 comentários:

Menina Eva disse...

Ahhh, o que é isso? Trailer? Cenas dos p´roximos capítulos? Você me forçou a sair do Google Reader e vir aqui comentar.

Bom ritmo, boa escolha de tema. Falta desenvolver ospersonagens. Eu estou aqui, na platéia. Ansiosa.

claudia lyra disse...

Que bonito! Cara, você está cada vez melhor nos contos!

Andarilho disse...

Parece roteiro de filme mesmo assim. Mas de filme bom.

Gerundino disse...

é.... posso ser sincero. Não gostei muito.. mas é pq não vi o resto. Termina que eu dou meu pareçer final, hahaha.

Ana P. disse...

Evinha: desenvolver os personagens é minha maior dificuldade. Como eu, EU, que nem sou desenvolvida, posso me atrever a desenvolver alguém. Little secret: dia desses tava arrumando aqui minhas coisas, e achei dois cartões que vc me escreveu. Bateu uma saudade louca de alguém que eu nunca vi. Como isso é possível?

Clau: eu quero mto melhorar nos contos, vamos ver se a continuação vai valer a pena.

Andarilho: filme bom, olha, fez meus olhos brilharem, ahuahuahuahuahuahuahua! Vamos ver, vamos ver...

Gerundino: sinto lhe decepcionar, mas não sei quando vou terminar. Queria escrever um pouco mais hj, mas visto minha condição de convalescente, prefiro deitar e dormir!

Beijo na rótula!

Ana disse...

Mancada se não continuar! Ainda espero a continuação daquele outro...
Beijos

Ana P. disse...

Ana: a continuação daquele outro, er, bem... assim que eu acabar esse, senão eu me embanano toda, e acabo embananando vocês!

Cristal - a louca. disse...

Nofa, era uma história de superação? Fiquei com dó kkkkk.
Tá eu sou uma escrota sem sentimentos. rs

Beijundas ^^

Kuka disse...

[esperando]

♠ Rodrigo Bersogli disse...

Hehehe, ansioso pela continuação!

Parabéns, já estou seguindo ;)

Guilherme disse...

E essa continuação... sai ou não sai?
#apenasmaisumfazendopressão.

Ana P. disse...

Cristal: olha, não era pra ser superação e pans, mas olha só... não sei ainda como vai ser o final, HAUHAUHAUHAUHAUHAUHUAA!

Kuka: vocês me pressionam, mas enfim, vai continuar. Se vai ser bom ou não, well...

Rodrigo: taí, tem continuação, mas né, digamos que eu esteja com MUITO sono pra escrever algo decente, ahuahuahuahuahuahua!

Gui: sem pressão, com pressão num sai nada. Quinta vez que eu tento escrever a história de novo, agora saiu aí, do jeito que saiu #sófaçomerdaquandopressionada

Abraços fraternos, pessoas humanas!