terça-feira, 2 de novembro de 2010

e bem no fundo do peito uma vontade de amar ela...

Eu achei uma flor, um dia, no caminho pro trabalho. Isso pra você pode parecer um "e daí". Daí que no caminho pro trabalho só existem prédios, asfalto, cimento, cinza. Somente o concreto, somente o palpável, somente o rígido, o certo, o normal, o de sempre. E aí surgiu uma flor, no meio do caminho. Dava até um poema. Mas alguém muito mais inteligente do que eu teve essa mesma ideia há muitos anos. Não cabe a mim fazer plágio no momento.

Enfim, achei uma flor, enquanto caminhava pela rua, no caminho para o meu trabalho. E isso me encantou, porque a rua estava vazia, não havia parques ou jardins por perto, e no entanto, lá estava a flor, pétalas amarelas, parecendo extremamente viva num mundo sem cor. Eu estava apressada nesse dia, estava atrasada, tinha reunião e metas para me preocupar, uma fila interminável de clientes insatisfeitos para agradar. E a flor amarela, vivída, no meio do asfalto, fez com que eu parasse de pensar nisso tudo.

A flor amarela me chamou, eu pude ouvir claramente ela dizendo "leve-me com você". Então eu atravessei a rua e cheguei aonde a flor estava. Olhei para os lados: ninguém na rua a essa hora. Isso era realmente estranho, mas não me importei. Agachei-me para recolher a flor e não reparei na quantidade extraordinária de espinhos que ela tinha. Então eu me machuquei, voltei a ficar de mau humor, amaldiçoei a flor desgraçada e voltei ao meu caminho.

Todos os dias eu podia ver a flor amarela, sempre no mesmo lugar, sempre como um toque de ouro no meio do cinza. Todos os dias eu me imaginava com a flor, e sempre imaginava que alguma espécie de felicidade era guardada para quem conseguisse pegar a flor sem se machucar nos seus espinhos.

Todos os dias eu desejava ter aquela flor pra mim.

Um dia eu criei coragem e resolvi tentar capturar a flor novamente. Era incrível que, mesmo depois de tanto tempo, a flor continuava amarela e viva, e mais incrível ainda, que ninguém tenha reparado na sua existência. Então eu enfrentei a dor que os espinhos me causavam e recolhi a flor. No momento em que eu a ergui do chão, ela não mais me machucou. E eu pude sentir o cheiro da flor e a textura suave de suas pétalas.

Eu sabia, eu tinha a certeza, eu sempre conheci aquela flor amarela. E ninguém mais poderia ter recolhido essa flor, porque, de alguma forma, ela parecia ter sido feita pra mim.

8 comentários:

Andarilho disse...

Eu acho que a flor deveria ter continuado no mesmo lugar. Porque tirando ela, vc sente o perfume, sente as pétalas, mas ao mesmo tempo está matando ela.

Sunflower disse...

amar - ela sempre foi, dentre todas as cores, a mais quente, chata e imperativa. Logo, minha favorita.

Ana P. disse...

@Andarilho: sabe quando algo parece estar ali só te esperando? Você não pensa no mal que você fará ao mudar a realidade daquilo. Você quer pra você e ponto. Porque ficaria perfeito ao seu lado. Enfim...

Sunflower: eu costumava odiar essa cor. E sei lá, de repente, me apaixonei.

AC disse...

A flor no caminho, o sinal, o desafio, o despertar do sentido de posse...
Você conseguiu superar a dor dos espinhos, alegrou-se. Mas, agora, quando vai para o trabalho, não mais verá a flor amarela. Nem você nem ninguém. A flor tinha perdido a sua essência, porque alguém a quis possuir.
Terá sido um prazer efémero, como é todo o sentido de posse?
(Obrigado pelas reflexões que me proporcionou o seu texto)

Beijo :)

Márci disse...

Eu tb quero uma flor...mas sabe que eu ficaria na dúvida eterna se eu a pegaria ou não...Pois é como o Andarilho disse....Uma vez apanhada ela estará fadada a morte....embora nada dure pra sempe né...Enfim...Quiçá eu apenas ficaria contemplando ali de longe, o tempo possível...alegrando o caminho a cada manhã....

Gerundino disse...

vou estragar o texto...

ela tava bem adubada com a merda do dia a dia né?

Juliano Correa disse...

Venho de uma família absolutamente formalizada, questões culturais, enfim. Para mim, a idéia de "olhe, mas não toque" faz parte do meu cotidiano. Minha avó costumava dizer: "não precisa olhar com a mão"; isso me dá uma sensação estranha, porque atualmente as pessoas parecem não se contentar em admirar algo, já querem ter aquilo que gostam, admiram etc. E isso extrapola para aspectos humanos também, queremos "ter" pessoas, em vez de estar com elas e admirá-las em seu estado natural. E eu paro aqui, porque o olho já começou a ficar úmido. Só para finalizar: o texto está muito bem escrito, parabéns, lindona!

Ana P. disse...

@AC: eu vejo diferenças entre ter e possuir. E no entanto, vejo que nunca chegamos em nenhum dos dois. A essência daquilo que temos ou possuímos, nós não conseguimos capturar. Eu acho...

@Má: a gente nunca sabe o que exatamente pode acontecer. De repente um dia caia uma pedra em cima da flor, de repente outra pessoa vá e arranque todas as suas pétalas sem tirá-la do lugar. De qualquer forma, a flor vai morrer. enfim...

@Gerundino: todos nós estamos muitíssimos bem adubados com a merda do dia a dia. E de que adianta, né? Sempre acabamos sendo arrancados do nosso devido lugar, de alguma forma.

@Juliano: "e isso extrapola para aspectos humanos também" > EXATAMENTE! Nos achamos donos das pessoas, das coisas, do ar, da terra, de tudo. Quer dizer. A gente male male possui nossa própria vida.

Somos todos escravos da ocasião.