terça-feira, 10 de março de 2009

Notas de Família

Na total falta de assuntos que reina em minha mente, resolvi que seria interessante [para mim] falar um pouco da minha família aqui. Quem sabe assim eu consiga entendê-los, entender a mim mesma e entender porque eu cada vez menos identifico algo deles em mim. E algo de mim neles.

Quando eu nasci, a família já estava bem estruturada. Era meu pai e minha mãe, e três filhos, sendo um menino, uma menina e um menino, nesta ordem. Quando minha mãe engravidou de minha pessoa humana, ela tinha 32 anos. Não era uma idade perigosa, mas, em minha adolescência rebelde, eu sempre acreditei que fui um fruto indesejado. Aconteci sem querer. Acho que todo adolescente rebelde pensa um pouco isso.

Enfim, meu nascimento, pleno carnaval de 1984, foi meio complicado. Contando o que eu lembro de mamãe já ter contado, ela estava no ônibus quando entrou em trabalho de parto [daí meu talento para ser pobre, acredito]. Não tendo condições de chegar a um hospital mais... ahn... renomado, ou sei lá o que, o motorista do ônibus nos deixou no hospital Leonor Mendes de Barros, no Tatuapé. Pra quem mora em Sampa, fácil de lembrar: é aquele hospital do lado da Febem.

Foi um parto complicado, porque os médicos queriam que fosse natural, mas, depois de um exame que eu num lembro o nome [ultrassom? sei lá!], eles constataram que minha posição na barriga de mamãe não era lá muito favorável para o parto normal: para quem conseguir visualizar, eu estava como que deitada na barriga. Aonde teria que sair a cabeça, estava a bunda [talvez daí meu talento para ter merda na cabeça].

Minha mãe, muito sagaz, gritou com o médico que ela não carregou um bebê nove meses na barriga pra nascer morto [porque, a essa altura do campeonato, um parto normal iria matar ou eu, ou minha mãe, ou as duas], e além disso, já tava passando da hora [sim, eu passei UM POUQUINHO da hora, daí talvez... tá explicado?]. O médico então abriu a barriga da minha mãe e me tirou de lá [tentei escrever essa frase num português bonito, mas tô com preguiaça de pensar]. Nasci às 15h de um 17 de fevereiro, sexta-feira de carnaval.

Daí que eu nasci gigante. Assim que minha mãe acordar e eu tiver a informação detalhada, eu atualizo o post. Mas acho que foi algo em torno de 5 kg e 54cm. Sim, gigantesca. Diz minha mãe que nem precisava me procurar muito no berçário, todos os bebês eram pequeninos e eu era GIGANTE. E por isso desde que eu me entendo por gente, os apelidos carinhosos que meus irmãos sempre me deram foi "anormal" [por conta da cesária de mamãe, todos eles vieram de parto normal]; "testuda" [tenho uma testa avantajada, realmente... com uma cabeça gigante dessas!]; "gorda" [nesse eles eram até gentis]; "elefantinho" e por aí vai.

Desde pequena, desde sempre, ouvindo coisas desse tipo. Eles se espantam até hoje se eu fico nervosa quando eles falam isso. Meu irmão mais velho [que será tema de MUITOS posts aqui] chega a argumentar que eles sempre me chamaram de gorda, que eu não deveria mais me ofender. Acho que de qualquer outra pessoa nesse mundo não me ofende mesmo. Eu sei que eu sou gorda, oi? eu tenho espelho em casa. Mas passar vinte e cinco anos de sua vida ouvindo, sempre, praticamente todos os dias, que você é gorda, testuda e feia, realmente não é dos melhores remédios para uma auto-estima exemplar.

Hoje acredito que grande parte dos meus desentendimentos com meu irmão derivam dessa época, em que eles detonavam toda e qualquer auto-estima que eu pudesse vir a ter. Lembro que quando eu sentava no sofá, eles levantavam, como se eu estivesse fazendo um sobrepeso ao peso deles.

Todas essas coisas eu conversei com uma psicóloga, na época em que eu resolvi fazer tratamento. E eu sei que eu deveria voltar ao tratamento, lembro que ela disse que essas histórias da infância ficaram mal resolvidas, e eu tinha que enfrentar isso tudo com meus irmãos e pais, mas... não sei. Acho que não adianta mais hoje em dia.

Por todas as complicações que eu tenho no meu relacionamento com minha família, resolvi criar essa sessão desabafo. Sério, se vocês não gostarem, se ofender a ideia de "família unida e feliz" que vocês possam ter da minha família, se de alguma forma vocês realmente odiarem isso aqui... bem... FODA-SE! O blog é meu, e eu preciso disso. Qualquer coisa pula o post, pula o blogue, pula da ponte. Mas não me encham o saco.

Deixem que isso minha família já faz, e muito bem, há vinte e cinco anos.

13 comentários:

Andarilho disse...

Vc ainda mora com eles?

Porque a melhor coisa que tem é morar longe da família.

koster disse...

Oi, vim encher o saco...

Eu nunca tive tempo para ter auto-estima, com meu sobrepeso e por não ser aquela que coisa que você diz "nossa, que menino maravilhoso", mas acho que não importa tanto assim. Como disse um cara no CQC em uma das matérias ontem (09 de março de 2009): "Não precisa ter um pênis grande, mas te que fazer a cara de quem tem pênis grande". (é só metafórico, tô explicando que feios podem ser bonitinhos).

R.C, 25 anos, jornalista disse...

OI Ana!! Menina, não tem porque te exnxer o saco... Seus textos são muito bons e realistas...bem mais do que esses textos de blog que fazem da vida um coisa cor de rosa...Isso tudo é picaretagem de gente que finge ser feliz...
Acho que vc está certíssima em desabafar. Cara, seus irmãos tb devem ser cheio dos defeitos. Comece a apontar os deles....
beijos

Perdido disse...

Depois de todo esse carinho no final do post eu nem vou comentar nada!

neutron disse...

Eu ia falar alguma coisa, mas o comment do Andarilho desarmou qulquer argumentação minha, hahahaha.

Ana P. disse...

Andarilho: minha meta é sair de casa assim que eu terminar a faculdade. Já vou ter um dinheiro razoável no FGTS, dá pra bancar pelo menos metade de um apê minimamente decente. Mas assim: meu irmão mais velho mora longe de mim. Mas nossas tretas hoje são financeiras.

Koster: você NUNCA me enche o saco, beibe, cê sabe... a questão não é nem eu me achar feia ou gorda. Bom, gorda eu sou, isso é um fato, mas caralho, num precisava ficarem me repetindo duzentas vezes por dia isso! Minha auto-estima vai bem, obrigada... mas de vez em quando, tenho umas recaídas fudidas. E sei que eles influenciaram MTO nisso.

R.C [lembro do Roberto Carlos toda vez que te vejo por aqui... mas acho que teria mais a ver com a Christiane F., 13 anos, drogada, prostituída... whatever!]: depois de toda essa intro... adorei os elogios, obrigada! Meus irmãos até têm os defeitos deles, mas... mas... eu cresci idiotizada, e não consigo reparar apenas nos erros. Com exceção do mais velho. Que fica pra ooooutro post.

Perdido: quem num comenta nada num ganha resposta. Mas acho que eu já reclamei demais da minha família com você, né? Ou não?

Neutron: você, MAIS DO QUE NINGUÉÉÉÉÉM... talvez não, vc e a Má sabem bem com o que eu lido aqui em casa. Sabem todas as agruras pelas quais eu passo, as várias tristezas, os dias de choro, enfim... então... é isso. Vamos fazer assim, você me ajuda a resolver meus problemas familiares e eu te ajudo a resolver os seus! Quital?

Brigada, gente. Sempre! ;)

Psicoalcoolista disse...

Parabéns pelo post, principalmente pela coragem de falar abertamente de algo tão íntimo. Acho que todo adolescentes realmente já se sentiu "indesejado" pelos pais, seja por ouvir histórias de como foi a concepção, ou por pelos pais deixarem escapar de vez em quando o quanto não correspondemos ao que eles idealizaram do que seríamos, enfim, são questões difíceis de se lidar e acredito que um trabalho de análise ajuda muito, pelo menos para eu que fiz 3 anos de terapia e hoje lido um pouco com essas questões.

Márci disse...

Familia a gente não escolhe, mas aprende a amar de qualquer jeito....e tolerar tb.

Ana P. disse...

Psicoalcolista: É, eu penso em um dia voltar pra terapia, mas é que por enquanto eu tenho lidado com esse tipo de trauma, se é que é trauma mesmo, por aqui ou com meus amigos.

Má: pois é... vc bem sabe, né... como são as coisas aqui.

Chico Mouse disse...

Porra, o lance do sobrepeso no sofá devia ser cruel... hahahaah! Bando de irmão fulero... :P

Eu só tenho uma irmã, 4 anos mais velha. A gente brigava pra caraleo qnd mais novo, mas hj em dia a gente se dá super bem...

natália moraes souza. disse...

cara.
gostei desse blog.
tô te acompanhando...
=)

Walquiria Biazetto disse...

Escrevi sobre a mídia justamente porque esse poder me encanta de uma forma muito estranha. Se for pra participar da mídia, que seja do lado que influencia e não do lado que é influenciado.
Mas não estava num estado mental aceitável quando escrevi aquilo, você entendeu alguma coisa? Tirando a idéia principal, me parece algo muito estranho para decifrar.
o_O

Quanto ao seu post, nem sei o que falar. Psicólogos são tão loucos quanto nós, não sabem de porcaria nenhuma. Pelo menos não acertaram comigo. Se vc quer superar, supere sozinha que sua vitória será muito maior.

Pamela disse...

Ah querida, não me fala em família, por favor. Não depois de, nesta ultima sexta feira 13, veja vc, minha mãe e meu irmão terem jogado no lixo 'por engano' o saco com todos os ursinhos de pelúcia que guardei durante 22 anos.


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