quarta-feira, 6 de maio de 2009

Soninho

Era eu e você, deitados de costas, olhando pro teto. A gente nem se tocava, apenas olhava pro teto branco, com o lustre que eu escolhi, porque eu sempre disse pra você que eu adorava lustres. Mas agora, olhando pro teto, eu ficava pensando no quão horrível seria se o lustre caísse enquanto dormíamos. E lembrei de já ter dito isso pra você, e você ter falado que ia sempre me proteger, mesmo se o lustre caísse e quebrasse as suas costas.

Mas a gente olhava pro teto, eu olhava pro lustre, e não porque ele iria cair ou algo do tipo. Olhava porque tinha medo do que você poderia dizer agora. Porque eu queria tanto saber quais eram os seus pensamentos. Qual seria o seu próximo passo. Deitada, sem olhar nos seus olhos, ouvindo o som de sua respiração ritmada, eu pensava que você ia só levantar da cama, calçar os sapatos e ir embora. E eu não queria que você fizesse isso, porque eu realmente precisava de você mais do que nunca.

As palavras doem em determinados momento. Elas parecem estar sobrando, e então tudo o que a gente deve fazer é silêncio, e respeitar o silêncio e o pensamento do outro. Mas uma expressão calava fundo no meu peito, querendo ser gritada, querendo ser expressada para que você, talvez, percebesse que eu estava ali. Percebesse que eu não era apenas um objeto a mais no nosso quarto já tão abarrotado das nossas coisas, nossas bagunças, nossos cheiros e nosso jeito de ser.

Aí eu percebi que o som da sua respiração tava calmo demais, demais da conta. Então eu resolvi arriscar uma palavra, pra tentar tirar você desse torpor e falar pra mim o que, afinal, você estava pensando.

- Amor?... Você... vai me perdoar?

E o silêncio. Nada além do silêncio. É então que eu me viro, me viro pra você porque não aguento mais aquilo, e porque eu realmente preciso saber!

- Am...????

Mas já não adianta mais. Acho que você nem me ouviu.

O seu sono, e a distância, foram maiores e falaram mais alto que as minhas palavras. Mas não tem importância, é até melhor. Porque pelo menos, eu não vou precisar um dia me arrepender de não ter dito.

Eu disse. Eu sempre disse. Você que não quis me ouvir.

4 comentários:

Nina disse...

Ahhh...ana, não me torture assim.
Que lindo texto, lindo demais, me lembra muitas coisas que eu sinceramente nem quero pensar.
Mas mesmo assim, é lindo.
E as vezes o silencio fala bastante aos ouvidos que não querem escutar...

Andarilho disse...

Que tristeza...

iilógico disse...

móóóóóóóóórreu?
ó dó...

Ana P. disse...

Nina, Nina... o silêncio grita. É impressionante como ele me fala mais do que as palavras.

Andarilho: lembrei do comercial da Havaians... "por favor, vá emboooora...", kkkkkkkkkkkkkkkkkk

iilógico: não morreu fisicamente. Mas algo aqui dentro de mim morreu, e não consigo encontrar formas de fazê-lo voltar à vida.