quinta-feira, 11 de junho de 2009

Chuva


- Quando você olha através das gotas de chuvas que ficam paradas na janela, sem escorrer e sem evaporar... não parece que o mundo toma um brilho diferente?
- Hein?

Eu não podia nem ter fingido que não ouvi a guria falando. Estava sem meu celular naquele dia, logo sem as músicas que me fazem escapar desse mundo chato e insosso. Estava pregado, claro, e então tudo o que eu queria era dormir. Mas como eu só consegui sentar naqueles bancos do corredor do ônibus, não vou ficar sentado dormindo, com a cabeça pendurada pra fora da cadeira, né? Coisa chata.

Pois bem, como eu dizia, estava pregado. Logo nem reparei na guria ao lado, menos ainda no que ela dizia ou fazia naquele momento. Mas quando parei pra olhar, pasmem: ela brincava com as gotas da chuva que batiam na janela.

- Tem gotas que não saem do lugar, você já reparou? Pode soprar, elas não saem do lugar!
- É... talvez isso aconteça porque você esteja soprando por dentro do vidro.
- Ah, eu sei! Bobo! Sou tão tonta assim, não, né? Mas num é lindo? Se o sol sair, e bater nessas gotas, elas vão ter um brilho maior ainda. Repara.

Essa menina era louca? Ela nunca me viu na vida, e me chamou de "bobo"? Ah, mas vá!

- Você não gosta de conversar com estranhos, né?
- Ahn... eu?
- É que só tem você sentado do meu lado, juro que eu ainda num falo sozinha, pelo menos não no ônibus! Meu nome é ... e o seu?
- Eu sou o ..., prazer.
- Eu também não tenho o costume de falar com pessoas estranhas no ônibus. Mas alguém me disse hoje que eu deveria tentar fazer alguma coisa diferente. Eu tô tão cansada, sabe? Tô tão não querendo ir trabalhar, e esse frio e essa chuvinha convidam a ficar na cama, não é mesmo?
- É... mas...
- Você é casado, ...?

Pausa. Eu nunca entendi muito bem o que as meninas querem quando perguntam se você tem namorada ou afins, mas CASADO? Eu lá tenho cara de casado? Eu tenho aliança, eu pareço tão velho?

- Você acha que eu sou casado?
- Hahahahahaha! Não tenha medo de responder. É que se você for solteiro, ficar na cama sozinho não deve ser legal. Mas se você for casado, deve ser mais difícil ainda de levantar pra ir trabalhar, bom, isso se você amar realmente sua esposa. Você ama sua esposa?
- Hey, garota, calma! Eu não sou casado.
- Ah... que bom!
- ?
- Digo... er... não, digo espero que você encontre alguém para amar. Olha, ali é meu ponto, vou descer, escuta, fica bem, tá? Tenha um dia... brilhante como a chuva no sol!

Eu fiquei no ônibus. Estarrecido e sem saber o que dizer. Eu sabia que aquele não era o ponto dela, eu já a tinha visto várias vezes no ônibus. Mas ela nunca falou comigo, bom, nem eu nunca sentei ao lado dela também.

O cheiro dela me fez bem. E as palavras dela permaneceram em mim.

Quer dizer, olhei depois. Tinham realmente algumas gotas de chuva que não saíam do lugar. Eu soprei, e elas não saíram.

Assim como o olhar não saiu de mim.

[pode continuar... ou não. meu eu lírico masculino tem muita coisa pra falar]

12 comentários:

Piero M. disse...

Adorei seu texto Ana! Explorando novos métodos?
Ficou lindo!

Acredito que as pessoas deveriam ser mais "meninas que observam as gotas". Ser um pouco mais observadores nos pouparia muita coisa...

Andarilho disse...

Seu cérebro masculino ainda tem que evoluir. Nem disse se a menina era bonitinha ou não (o que é exigido pra quem tem um mínimo de testosterona).

Ana P. disse...

Piero: eu tenho aprendido a observar. Aliás, estou mto mais observadora de mim mesma. E por isso estou assim...

Andarilho: meu cérebro masculino diria que ela é gostosa. Meu eu lírico masculino prefere o olhar.

i ILÓGICO disse...

ain!
amei, você sabe o quanto!

bju-te

Ana P. disse...

iilógico: eu imagino o quanto! Mas fico feliz que tenhas gostado. Quiçá a escrita melhore, agora nas férias!

bjo-tu.

koster disse...

Quando percebi a idéia de pensamento masculino, logo fui ver se não tinha mais ninguem no blog postando. Mas é você mesma, mesmo, seu eu lírico, enfim. É uma visão bem diferente da sua, e ao mesmo tempo é você apenas a visão. Viajei no texto... kkkk...

Ana P. disse...

Koster: mas pelo visto vc pegou o espírito. É só um eu lírico, que queria falar como eu gostaria que falassem pra mim. Ou não e vice-versa.

Cherrie disse...

Oi, você comentou no meu blog e vim aqui conhecer um pouquinho do seu. Fiquei em dúvida sobre dos quais 3 blogs deveria comentar rs...

Adorei esse conto! Você escreve muito bem, Parabéns!

Em resposta ao comentário sobre filmes, dê uma olhadinha nesse http://catyfairy.blogspot.com/2008/10/32-mostra-internacional-de-cinema.html acho que vc vai gostar de algum.

Beijo!
http://www.catyfairy.blogspot.com/

Chico Mouse disse...

Parece roteiro de comédia romântica estrelada pelo Hugh Grant e pela Drew Barrymore. :P

Ana P. disse...

Cherrie: valeu por aparecer por aqui, dear. É, eu tenho mtos blogues, né? Hahahahahahahahahahaha! Anyway, vou olhar o link e comento por lá mesmo!

Chico: comédia romântica? Hum... nunca assisti nenhuma comédia romântica com os dois, existe? o.O

Não era minha intenção plagiar ninguém, ahuahuahuahuahuahuhauhaua!

Psicoalcoolista disse...

em uma coisa seu eu lírico masculino coincide muito com meu eu real: encontrar uma garota como a do conto em um ônibus. Parabéns pelo conto!

Gerundino disse...

Concordo com o Andarilho.. você precisa desenvolver melhor o lado masculino, tinha que falar algo do estilo e ela tinha uns peitos assim óóó... Bunda durinha, tava com uma calça daquelas de ginastica que eu nunca lembro o nome... e assim vai, hahaha..

Mas eu gostei mais do outro.. do casamento do que desse.. o do casamento ta mais entendivel e desenrola facil.