quarta-feira, 29 de julho de 2009

Quando eu era pequena, apesar de ter nascido em uma família grande [pra média paulistana, somos em seis pessoas na família], sempre fui muito sozinha. E isso nem é desculpa ou explicação para a minha personalidade hoje, é apenas uma constatação que já naqueles tempos eu tinha. Fui a quarta e última filha a nascer nesta casa, e, como caçula, deveria ter sido muito, mas muito mimada. Bom, não foi o que aconteceu. É mais ou menos o que acontece hoje em dia, mas não foi o que aconteceu na época.

Apesar da diferença de idade entre eu e meus irmãos ser insignificante [em ordem decrescente, as idades são 31, 28, 27 e eu, com 25 anos], sempre me senti muito mais nova que todos eles, e, talvez por isso, me sentia tão isolada. Meus irmãos, isso no meu entendimento, sempre se deram bem entre eles, e eu era... eu. Na escola ou na igreja, eles conversavam em público entre si. Comigo, no entanto, era raríssimo, raríssimo mesmo eles falarem. Lembro que quando comecei a frequentar a missa no horário dos jovens [ainda tem isso hoje em dia? Missa das crianças, dos jovens, blá blá blá?], meus irmãos já tinham seu grupo de amigos e tals, e eu não tinha amigo nenhum. Ficava a missa inteira sozinha, até a hora de ir embora quando, invariavelmente, eu esperava por um deles na esquina, um pouco distante da igreja, para ir junto com eles, pois minha mãe não gostava que eu fosse pra casa sozinha.

Uma vez, meu irmão mais velho veio falar comigo no final da missa [claro que não me lembro sobre o que, mas enfim, veio falar alguma coisa], e um amigo dele, que estava por perto, falou mais ou menos assim: “caramba, Theo, você tem mais uma irmã? Pensei que era só o Tiago e a Néia”. Pois é. Ninguém nem sabia que eles tinham mais uma irmã. Por aí dá pra imaginar mais ou menos como era meu relacionamento com meus irmãos no mundo fora de casa?

Dentro de casa também não era muito diferente. Enquanto ouço amigos me falando que brincavam com os irmãos, ou que brincam com os irmãos mais novos, e que tem uma puta amizade entre os irmãos e tals, eu não posso dizer nada disso. Também não posso falar “olha, eu e meus irmãos nem nos falamos”. Mas não posso dizer também que somos amigos. Das coisas que me doem dizer sobre a minha família, essa parte dos meus irmãos machuca bem fundo, porque sei lá, né, falar com seus irmãos simplesmente porque eles são seus irmãos é complicado.

Anyway, eu sempre brinquei muito sozinha. Então eu brincava com meus bichos de pelúcia [que eu sempre adorei, e adoro até hoje], com minhas bonecas, conversava com meus brinquedos como se eles fossem meus amigos. Zoado, né? Eu sei, eu também acho, e acho que essa é só mais uma parte da minha vida que os psicólogos iriam adorar saber. Eu gostava de brincar de karaokê [um dos brinquedos que eu mais gostei de ganhar foi o Meu 1º Gradiente, ainda existe?], gostava de brincar de ser atriz, mas o que eu mais gostava mesmo [saudade da infância] era de brincar de escolinha.

Não sei vocês, mas a maioria das crianças que eu já vi brincando de escolinha, brincavam JUNTAS. Tipo, várias crianças eram os alunos, e um era o professor ou a professora, e pá, e eles revezavam. Eu, não. Eu brincava de escolinha sozinha. Quando ganhei uma lousinha [definitivamente, o brinquedo que eu mais gostei de ganhar na minha vida inteira], eu já devia ter uns... nove, dez anos. Bom, na minha época era normal brincar até os 14, 15 anos. Brincar, não fazer filho.

[mudo muito de assunto, preciso me focar]

Eu então tinha uma lousa, que ficava na lavanderia da casa, e brincava de escolinha, de manhã antes de ir pra escola de verdade, e de noite, até a hora que minha mãe mandava eu ir dormir. Como eu tinha muitos livros escolares em casa, eu os usava para “passar a lição” para os meus “alunos”. Então eu escrevia tuuuuudo na lousa, e esperava um tempo, quando meus “alunos” tinham acabado de copiar, eu explicava, apagava, e passava os exercícios para “eles”, depois corrigia tudo. Fazia chamada até, olha só!

Sim, meio esquizofrênico assim mesmo, mas eu me divertia.

Anyway, porque eu estou contando isso mesmo? Sim, falava eu que sempre fui muito sozinha. Hoje eu tenho muitos amigos, muitos mesmo. Tá, talvez não MUITOS, mas tenho amigos o suficiente para ter uma vida boa. Não posso reclamar, por exemplo, de não ter com quem conversar, ou com quem sair e me divertir. Se eu não faço isso, e eu realmente evito muito fazer isso, é por um único e simples motivo: eu me acostumei à solidão. Claro que tem fases que eu surto, e quero muita gente perto de mim, e sair todo dia, e olha, até consigo conversar com estranhos e fazer amizade.

Mas, no geral, eu me sinto legal sozinha. Tem gente que diz pra mim que é porque eu nunca morei sozinha, que eu ia morrer de tédio e blá. Acredito que não. Até mesmo porque, morar sozinha é o sonho de uma vida. Eu gosto de sair e ver as pessoas, e de trocar ideias, e gosto dos meus amigos, aliás, AMO, porque eles são os irmãos que eu queria ter tido na infância. Eu gosto muito de tudo isso.

Só que a conclusão a que eu chego é que, em dias como hoje, eu sou uma pessoa melhor sozinha. E isso me assusta muito, mas muito mesmo. Porque se tem uma coisa apenas que me assusta na ideia de morrer, é a ideia de morrer sozinha.

Preciso sair desse marasmo em que eu me coloquei.

15 comentários:

Beatrix Kiddo! disse...

Sou filha única e a coisa que mais queria era uma irmão mais velho. Não queria(quero) uma irmã, ou irmãos mais novos, quero mais velho. Impossível, eu sei. E esse lance de viver sozinha todo mundo fala que não vou aguentar e tal, mas eu quero mto, mto mesmo, nao aguento mais morar com meus pais.

Cara, vc é praticamente uma filha única, freaky!
Eu não vou dizer que odeio ser filha única, pq não. Mas queria tanto um irmão mais velho.
Amigos não é a mesma coisa. Eu vou querer pegar um deles, eventually!
HAUAHUAHUAHAUHAUHA

Kuka disse...

Mas, gente, vc chegou num ponto que todo mundo deveria chegar: conviver bem consigo mesma. O problema do geral é justamente não saber fazer nada sozinho sem se cagar todo (ver codependência). Tenho certeza absoluta que o primeiro e principal passo pra alguém lidar com o outro de uma forma minimamente saudável é justamente aprender a lidar consigo mesmo, com suas próprias questões e com a solidão. De dentro pra fora, saca?

Márci disse...

Caracaaa..Há mega tempos que eu nem entro Coletivo...Que amiga desnaturada...ahahahaha...Anyway, eu tb cresci "sozinha" e brincava de escolinha com meus amigos imaginários, e ás vezes tb gosto e prefiro ficar sozinha...Total compreendo.

Mas assim, quando vc quiser sair desse tal marasmo, sabe quem pode recorrer hein. Desde que eu esteja em São Paulo...nhunf...Tá zuada essa minha semi-temporada no interior.

Bjus e see ya soon !

Andarilho disse...

Eerrr, vc dava aula pros seus bichos de pelúcia?

Aliás, brincar sozinha de escolinha não te faz freaky. O que te faz freaky é brincar de escolinha antes da escola e depois da escola... Muito estranho isso, hauhauhauh.

Eu não ligo de morrer sozinho. Eu ligo é de passar a vida inteira sozinho e quando morrer, saber que ninguém vai se importar muito.

Ana P. disse...

Beatrix: HAUHUAHUAHUAHUAHUAHUA! Cara, eu devo ser realmente estranha, não quero pegar meus amigos. TÁ, CONFESSO, tem um que eu pegaria SE NÃO FOSSE TÃO AMIGO, mas enfim, abafa o caso. Eu não sou praticamente uma filha única. Eu sou praticamente a única filha que se isola.

Kuka: então eu deveria me sentir bem com isso, né? Bom, de forma geral, eu me sinto bem. Só não me sinto bem quando eu me isolo demais, sabe? É complicado.

Má: ainda no interior, colega? Volta logo aí. Se bem que semana que vem já to na facu. Whatever... vc sabe que vc faz parte da família que eu criei pra mim.

Andarilho: eu nunca gostei de estudar, perceba, mas como eu npassava tempo demais brincando de escola, talvez seja por isso que eu acho estudar um saco, ahuahuahuahuahuahua. E eu sei que as pessoas vão se importar quando eu morrer, pq eu não vou deixar nada pra elas.

jujudeblu disse...

Acho que entendo vc.
E acho que às vezes a vida exige demais da gente que nos tira a força necessária para, simplesmente, estar.
Sei lá, penso várias coisas hoje...

Ana disse...

Ih, Ana...sabe qual é? Vc se tocou muito novinha que a gente nasce sozinho e morre sozinho e, isso é garantia suficiente de que somos plenamente capazes de fazer qq coisa entre um e outro sozinhos. Somos capazes...mas, queremos???
Os momentos mais foda da minha vida tiveram mesmo q ser sozinha, pq as lições e experiências só cabiam em mim!
O bacana é tempre ter uma galerinha restrita, querida pra comemorar e bajular qdo a gente precisa!
beijos

André B. Tosello disse...

"São Paulo é um aglomerado de solidão" - Tom Zé

~ Gaa.h disse...

Eu não sou a filha mais nova, tenho um irmão mais novo e dois mais velhos (beem mais velhos e nem moram comigo) de qualquer maneira minha vida parece um pouco com a sua, mas não tive uma infancia solitaria, mas atualmente tenho varios amigos.
Eu aprendi a conviver comigo mesma e a falar sozinha quando não tem com quem conversar (manias que ganhamos ao longo do tempo).
Mas é importante saber lidar consigo antes de ligar com as outras pessoas :)

Beeijos* Muito bom o blog
* estou te seguindo ~

neutron disse...

Morrer sozinha? Nunca. Estamos aqui até que a morte nos separe ;)

m disse...

... falar com estranhos é bom. primeiro pq não é aquele tipo de pseudo parente chaton e, segundo, pq há a possibilidade de não encontrar nunca mais. pra quem gosta de falar o que pensa, ou seja, "na lata", não precisa se controlar, ahhahaha.
mas, pensa bem, pior q não falar com irmãos é ter que manter a educação com parente de namorado(a)ou parente de parente.... amigos você escolhe, essas outras coisas vem de "brinde", fazem parte do combo.

Psicoalcoolista disse...

Eu embora tenha me relacionado muito bem com minhas irmãs, sempre me senti sozinho durante a infância. Brincava sozinho, falava sozinho, etc. E por muito tempo me isolei dos meus amigos e as vezes faço isso ainda. Outra conseqüência foi me apegar demais aos meus relacionamentos, coisa que até hoje tenho que lidar. Concordo com alguém acima que disse que é preciso estar bem sozinho, para ai poder se relacionar bem com o outro, porém sem o outro também não chegamos a esse ponto.

Ana P. disse...

Jujudeblu: não é a vida que exige demais da gente. É a gente que exige demais da vida.

Ana: é essa galerinha restrita que sempre me tira do marasmo e me faz gostar de tudo de novo e mais um pouco. Porra, não tem nada como a solidão para nos mostrar como tem gente querida na nossa vida!

André: não só S.Paulo... cidades grandes em geral. Falo disso quando falar do livro do Eisner que eu tô lendo.

~Gaa.h: mega dificuldade em digitar seu nome, ahuhauahuahuahuahuahuahuhua; olha, lidar consigo mesmo é das coisas mais difíceis que existe. Mais difíceis mesmo. Lidar com os outros é fichinha.

Neutron: você entendeu o que eu quis dizer, mas amo você mesmo assim ;)

M: sabe, por isso que atualmente eu evito falar com gente que eu não quero realmente falar. Eu parei de fingir interesse, e agora não consigo mais voltar.

Psicoalcoolista: esse seu porém matou e resumiu tudo o que eu queria dizer. Thanx!

beeanka disse...

Eu também brincava sozinha de escolinha!
AHAHAHA

E além de professora, eu era a aluninha!
HEAIUHUEIOASHEOAIU

Anônimo disse...

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