sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Pena

Não tinha nenhuma intenção em mente, nada de diferente na cabeça quando entrei no bar e sentei no balcão. A única coisa que me afligia naquela hora era a sede, e eu queria uma cerveja gelada. Só isso. Não queria pensar na vida, lamentar a sorte [ou o azar] com o garçom, e menos ainda fazer amigos. Eu queria apenas e tão somente tomar uma cerveja gelada. Ou mais, se a ocasião pedisse.

Mas eu conheço minha cabeça e sei que ela não se contenta em receber uma dose de álcool e permanecer na dela, sem pensar, sem refletir, sem... interferir na minha vida. E então o garçom veio, e colocou a caneca trincando de gelada na minha frente, disse-me o tradicional "Saúde, garota", e foi tratar de seus outros afazeres, ou seja, de nada. Eu, tradicionalmente, ergui a caneca, brindei comigo mesma, e detonei a caneca em um único gole.

Aquele gelado indo goela abaixo, resfriando um corpo cansado de caminhar, deixou as coisas no lugar e me fez respirar, e olhar em volta. Olha em volta. O bar era o mesmo de sempre, o balcão o mesmo de sempre, o garçom o mesmo de sempre, a cerveja a mesma de sempre. Já os clientes mudaram. O horário, é claro, não permitia que o bar estivesse lotado [aquele bar, de fato, nunca estava lotado].

Comecei a usar aquele bar como uma metáfora pra minha vida. Era exatamente igual. Sempre vazio, às vezes aparecia um ou outro alcólatra, alguns acrescentavam um pouco de vida ao bar, mas no geral eles só permaneciam lá até se sentirem melhor. Quando estavam já de bom humor e nada os afligia, porta afora. Enfrentar o mundo, porque era isso que as pessoas vinham buscar no bar. Um pouco de alento e coragem, e então iam embora. Às vezes aparecia alguém como eu, que encontrava no bar uma semelhança, um algo a mais que coincidia e ficava. Mas, invariavelmente, eu também iria embora um dia.

Quando tinha show, porque sim, às vezes tinha música ao vivo [jazz and blues, por isso adorava aquele lugar], a casa lotava mais um pouco. Tudo parecia bem mágico, e tudo parecia completo, não faltava nada. Mas óbvio, o show acabava, e então as pessoas iam embora também. Aquele momento do show ficava marcada na mente de muita gente, inclusive do bar. Mas dificilmente iria se repetir. Para aquelas pessoas, daquele momento pelo menos. Porque daqui uns meses poderia haver outro show, e outras pessoas, e por aí vai.

Mas ninguém ficava por muito tempo. Ninguém, apenas o garçom solitário.

E se você fosse um frequentador assíduo, como eu... poderia até sentir um pouco de pena do garçom, mas saberia que ele mesmo não se importava muito. Ele está bem onde está.

9 comentários:

Psicoalcoolista disse...

Realmente o bar é uma boa metáfora para a vida. Já andei muito por alguns, hoje só vou para conversar com algum amigo. Seu post despertou em mim uma doce melancolia, as vezes olhar a vida por um determinado ângulo causa isso, pois no fundo sempre há um vazio que nunca é preenchido.

Andarilho disse...

Todo mundo é solitário na verdade. Quem não é, apenas não despertou da ilusão ainda. Eles são felizes, mas iludidos.

Ana disse...

É xará...acho q vc está dando conta de que somos sozinhos...Seus últimos posts me levam a essa conclusão.
Pela sua perspicácia, acredito que já saiba disso há muito tempo, mas, percebo que está dando muito valor à parte vazia de sermos sozinhos, quando há uma imensidade de coisas legais por serem ÚNICAS, pq ser sozinho é ser INDIVIDUAL...a riqueza dos tipos de individualidade é maravilhosaaaa!
beijos...divirta - se nesse novo mundo (onde a cerveja é apenas acompanhamento dos nossos devaneios reais).

Ana P. disse...

Psicoalcoolista: eu ainda acredito que o vazio maior pode ser preenchido sim... pq sei lá, né, convivo bem com minha solidão, mas não quero conviver com ela pra sempre.

Andarilho: eu acredito que todo mundo conhece sua solidão, mas poucos tem coragem de encará-la e viver de boa com ela. E com a solidão dos outros.

Ana: quando eu me descobri sozinha, há uns anos, não percebi direito como era. Depois de um tempo, eu REALMENTE me descobri sozinha. Aí, minha filha, acostumar com essa visão foi bem difícil. Mas hoje eu me sinto melhor e pans com isso. Convivo bem comigo mesma, com meus amigos, com meus amores. E quando eu escrevo sobre isso, eu queria só realmente tentar entender pq algo q incomoda tanta gente, não me incomoda tanto assim.

Vai, tem dias que eu me sinto mais sozinha que o normal. Mas ... eu canto uma canção, deito e durmo e passa!

Emilly disse...

O bar é um refúgio.Um ambiente que me faz refletir bastante. Adorei o post =]

neutron disse...

www.aa.com.br

Ana P. disse...

Emilly: pois é, quando eu digo que PENSO no bar, as pessoas acham estranho. Mas né, cada qual com seu ritual!

Neutron: www.vasefoder.com.br HUAHUAHUAHUAHUAHUAHUAHUAHUAHUAHUA!

Gerundino disse...

Ahhhhh... a sensação de brindar consigo mesmo. Tão bom, tão solitário, tão perfeito, já tenho a idéia de que estar sozinho de certa forma é bom.. Assim podemos observar o mundo pelos nossos próprios olhos sem se preocupar com os outros.

www.vasefoder.com.br
não tem nada, rs

jujudeblu disse...

Só quero dizer que.... quero beber!!!

E, lindo post. Tu é foda, Ana!