quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Fate

Devo ser o único a sorrir quando a chuva começa a cair em São Paulo.

Chove, alaga tudo, trânsito complica, quem costuma chegar em casa às 19h, chega às 23h, e assim vai a sequência da vida. Eu não ligo pra nada disso. Quando começa a chover, eu começo a sorrir. Sorrio e não vejo a hora de sair daquela repartição chata, monótona, sair da frente do computador e correr pra chuva, como eu fazia quando era moleque.

Pisar na poça d’água e ver as pessoas irritadas porque a água do chão respingou na roupa. E sair correndo e rindo, como se nada mais me preocupasse. Queria bater palmas na chuva e rir com o barulho que as mãos molhadas se batendo faz. Eu queria também fazer peixinho na quadra descoberta na esquina da rua da minha casa. E mergulhar como se estivesse mergulhando no mar, sem me preocupar em sujar ou rasgar a roupa.

Leptospirose nenhuma iria me preocupar, eu iria pisar com muito gosto em cada poça d’água que encontrasse próxima à qualquer boca-de-lobo. Arriscaria fazer um barquinho de papel e deixá-lo-ia navegar nas ruas alagadas.

Nesse barquinho, eu seria capitão, e seria um capitão justo, trabalharia como os demais, e dividiria todas as minhas garrafas de rum. As festas seriam diárias, eternas, todos cantaríamos bêbados e ficaríamos aliviados com a chuva, porque ela mudaria as marés, e mudaria nossos destinos. As sereias nos encantariam e isso não seria ruim como nas estórias, elas nos fariam felizes por minutos, horas e então continuariam sua rota pelo mar.

Nossa tripulação jamais precisaria de descanso, porque nossa vida seria navegar, descobrir novas terras, novas aventuras, seria um eterno esforço em não deixar o barco afundar. Bêbados, excitados, felizes. Navegadores.

Meu barquinho de papel, no entanto, não é um barco de verdade. E eu vejo ele, se desfazendo na chuva, continuar seu caminho nas águas de um esgoto qualquer.

[o desafio da vida é mudar o destino das coisas.]

5 comentários:

Andarilho disse...

Eu gosto de chuva, mas não de alagamento. Na boa, aquilo ali mistura as águas dos encanamentos pluviais com esgoto... Literalmente, uma merda.

O bom de andar na chuva sem guarda-chuva é ter as lágrimas misturadas e ninguém notar.

Kuka disse...

clapclapclapclap!
Um dos meus favoritos!

Gerundino disse...

O bom de andar na chuva sem guarda-chuva é ter as lágrimas misturadas e ninguém notar.

O Andarilho tem cada uma foda...

mas chuva é tudo de bom por causa disso da pra fazer de tudo... e nada melhor q um banho de chuva pra lavar a alma.

Carina. disse...

Não me estresso com chuva.
Mas também não fico tão a vontade com ela...Parece sempre uma bronca dos céus.

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Vim aqui através do blog do Guilherme.
Gostei. :)

Ana P. disse...

Andarilho: dependendo do choro, não tem como não notar, sabe? mas eu gosto da chuva pq ela me faz parar de pensar.

Kuka: vindo de você... =) thanx!

Gerundino: um banho de chuva na madrugada. Não sei se lava a alma, mas dá um pouco de paz. Vai por mim.

Carina: Depende da chuva, né? aquela que cai mansinha, na boa, só um toque leve na pele, não aquela de granizo que fere e machuca. Assim é a vida no geral... né? Valeu a visita, tô retribuindo! ;)